O automobilismo virtual ajuda no real? Parte 1

Pergunta muito comum no meio do automobilismo e que também carrega uma resposta muito comum: ajuda somente a conhecer o traçado porque o simulador não consegue reproduzir a física da pista. Sim, isso é verdade, mas será que é só isso mesmo? Pra começar a responder se o automobilismo virtual ajuda no real, antes preciso responder uma outra pergunta: o que é automobilismo? Dizer que o simulador poderá te ajudar somente a conhecer o traçado das pistas parte de uma visão muito rasa sobre automobilismo, pois esse é um esporte complexo e que envolve muito mais variáveis do que somente essa: ser o mais rápido possível em um determinado conjunto de retas e curvas.

Dito isto, vamos dividir o automobilismo em três grandes pilares: preparação mental, preparação física e preparação técnica

• Preparação mental - Na sua Masterclass (https://youtu.be/Vka_H7YiTGI?si=ofoQJl76SOGcVKzs), Hamilton diz que não se trata de levar o carro ao limite e sim de desenvolver uma mente vencedora. Alguns dos seus insights você pode conferir no trailer ao final desse artigo. 

Se estamos falando de preparação mental estamos tratando sobre concentração, estratégia, mentalização da corrida (pesquise por Imagery training), como agir sob pressão e muitos outros aspectos que eu poderia ficar aqui por horas escrevendo a respeito.

Quando corremos no simulador não temos a total percepção de tudo que está acontecendo no carro e todas as forças que estão agindo sobre ele e isso exige uma concentração muito maior. Na pista posso dizer que sou capaz de fazer uma volta inteira sem estar 100% focado, já no virtual se estiver nessas condições, vou sair da pista ou ser 1s mais lento. Isso porque aquele feeling das forças que agem sobre o kart na vida real e que ainda não são reproduzidas fielmente no virtual, precisam ser substituídas pelo reflexo e isso exige uma concentração absurda. Você não vai sentir que o carro perdeu mais ou menos velocidade, ou que a curva está mais próxima ou mais distante, você vai ter que enxergar isso. Por esse motivo acredito que nunca veremos alguém com mais de 30 anos ser campeão mundial virtual de F1, mas apenas de classes como o turismo onde a velocidade é menor. 

Agora sobre a estratégia. O melhor ambiente para se testar uma estratégia é o virtual, onde o número e as variações de corridas que você vai vivenciar são muito maiores que na vida real. Isso significa que uma estratégia pensada para o virtual irá sempre funcionar no real? Não, porque as variáveis mudam, mas só o fato de em um ambiente controlado você começar a pensar na sua corrida já cria um hábito saudável e adiciona mais ferramentas na sua caixa que poderão te dar maior previsibilidade para os imprevistos de uma corrida (como não defender uma posição quando se tem uma penalização de 5s a ser somada no tempo total de prova). 

Em relação a agir sob pressão, quando estamos na pista e temos apenas uma volta para conseguir o tempo da pole ou não podemos errar senão perderemos a posição, são ativadas algumas regiões do cérebro como cortex pré-frontal e sistema nervoso autônomo. Essas mesmas regiões do cérebro são acionadas quando estamos jogando nos simuladores e precisamos tomar decisões rápidas para executar uma manobra ou termos controle emocional pra não errarmos aquela última curva e conseguirmos o tempo. 

No próximo artigo vou falar sobre de que maneira o automobilismo virtual pode ajudar na preparação física e técnica. De qualquer forma acredito que a partir de agora, se alguém te perguntar se o automobilismo virtual ajuda no real você já pode responder: você tem uma hora pra gente tomar um café?




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Leo Sousa
Apaixonado pela escrita e por automobilismo. Criador do método "Do 0 à Excelência - Kart Masterclass". Há mais de 5 anos ajudo pilotos a melhorarem seus tempos nas pistas